Parceria desenvolve tecnologia nacional que garante origem da carne
Com o objetivo de ajudar a democratizar a pecuária de precisão no país e a atender às exigências da União Europeia e de outros blocos econômicos, a Embrapa, em parceria com a Taggen, desenvolveu uma tecnologia que visa implementar e validar uma Solução Digital de Gestão Pecuária (DLMS), baseada na Internet das Coisas (IoT), com arquitetura escalável, de baixo custo e alta precisão, para identificação individual, monitoramento comportamental em tempo real e rastreabilidade de bovinos criados em pastagens.
De acordo com o CEO da Taggen, Werter Padilha, a plataforma desenvolvida utiliza IoT para acompanhar o animal ao longo de sua jornada, do nascimento ao abate, gerando evidências sobre onde ele esteve e em quais condições foi produzido. “Essa rastreabilidade ajuda a comprovar uma produção livre de passivos socioambientais, como desmatamento e criação em áreas protegidas ou indígenas, atendendo às crescentes exigências dos mercados internacionais, oferecendo ao pecuarista e aos demais agentes da cadeia uma ferramenta para avançar em sustentabilidade e, ao mesmo tempo, manter e ampliar a competitividade da carne brasileira no mundo”, detalha Padilha.
Segundo ele, a proposta principal da tecnologia é rastrear. “Identificar o animal é apenas o primeiro passo, mas identificar não é rastrear. Precisamos acompanhar sua trajetória e construir um histórico confiável de onde ele esteve ao longo de seu ciclo de vida, transformando rastreabilidade em evidência da origem e da conformidade socioambiental da produção. A partir dessa base, já estamos avançando na incorporação de novos recursos para gestão, manejo, produtividade, comportamento e saúde animal, contribuindo também para o seu bem-estar”, destaca.
Conforme explica o pesquisador da Embrapa (Fertilidade do Solo – Agricultura de Precisão) Alberto Bernardi, o projeto se desenvolve justamente no período em que ocorre a transição do atual SISBOV para o Plano Nacional de Rastreabilidade Bovina (PNIB), que representa uma mudança de paradigma: de um sistema voluntário de nicho de mercado para uma infraestrutura nacional obrigatória.
Segundo ele, para atender a essa realidade, as tecnologias digitais e a pecuária de precisão surgem como soluções promissoras, possibilitando a gestão individual dos animais, uma vez que os sistemas atuais de identificação e monitoramento por RFID via GPS possuem limitações e, por isso, há uma necessidade crítica de arquiteturas ciberfísicas de baixo custo e latência que se adaptem à realidade da pecuária nacional.
“Dessa forma, o uso de beacons Bluetooth Low Energy (BLE) e geolocalização por triangulação pode oferecer vantagens para atender o mercado de pecuária nacional, com um produto economicamente mais acessível e com alta eficiência energética, além de se configurar como uma solução que poderá assegurar a rastreabilidade total, exigida por mercados rigorosos”, complementa.
Impactos positivos para o segmento
Na avaliação do CEO da Taggen, a sustentabilidade só avança de verdade quando se consegue transformar uma necessidade em algo aplicável à realidade do campo. “Trouxemos nossa experiência de rastreamento na indústria para a pecuária e aprendemos a adaptá-la a um ambiente muito mais desafiador, com grandes áreas, poeira, calor, limitações de energia e conectividade. Esse processo de gestão permite transformar dados do animal em informação confiável para decisões, rastreabilidade e melhoria contínua da produção. É assim que a tecnologia deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser uma solução concreta para os desafios da evolução sustentável da pecuária brasileira”, relata.
A tecnologia desenvolvida, de acordo com o pesquisador da Embrapa, impacta diretamente em 3 pilares:
• Inovação: é o primeiro sistema brasileiro a utilizar triangulação BLE para superar a interferência de obstáculos naturais, eliminando a dependência de sinais de satélite caros no manejo diário.
• Social/Econômico: permite ao pecuarista uma gestão proativa e individualizada, maximizando a lucratividade por animal e reduzindo as perdas.
• Sociedade: garante carne com origem auditável e produzida sob altos padrões de bem-estar.
O futuro é agora
Na visão de Padilha, o cenário atual mostra que rastreabilidade deixou de ser uma discussão sobre o futuro e passou a ser uma necessidade imediata. Para ele, as recentes restrições da União Europeia à carne brasileira demonstram que não basta afirmar que a produção atende às exigências, será cada vez mais necessário comprová-lo ao longo do ciclo do animal. “Esse é um desafio especialmente complexo na pecuária, porque estamos falando de ciclos de produção que podem durar anos”, observa.
Ele cita ainda que o Brasil já está estruturando seus mecanismos de identificação e rastreabilidade, mas que é preciso acelerar essa evolução e transformar informação em evidência confiável. “Quem quiser permanecer nos mercados mais exigentes terá de estar preparado para demonstrar origem, histórico, condições sanitárias e conformidade da produção. E acredito que essa exigência não ficará restrita ao mercado internacional: o próprio consumidor brasileiro desejará, cada vez mais, conhecer a procedência da proteína que chega à sua mesa. Rastreabilidade, portanto, não será apenas uma exigência de mercado, mas também uma questão de transparência e confiança para o consumidor”, alerta.
Para Bernardi, o agronegócio brasileiro enfrenta um momento de profunda transformação regulatória para atender às exigências da União Europeia (UE), já que o cenário atual prevê sanções comerciais imediatas na pecuária e ainda se vislumbra pressão iminente por novas regras ambientais e tecnológicas, o que impõe desafios operacionais e de rastreabilidade sérios ao setor.
O pesquisador lembra ainda que o Brasil monitora as movimentações de animais, principalmente por meio da Guia de Trânsito Animal (GTA), que realiza o controle por lote. Segundo ele, esse sistema falha em reconstituir a trajetória individual de cada bovino, especialmente nas etapas iniciais de cria e recria, antes de os animais chegarem à engorda final ou ao confinamento e que, para atender à UE, o frigorífico precisa conhecer toda a cadeia de custódia, sabendo exatamente onde o animal esteve e quais tratamentos médicos recebeu individualmente.
“O agronegócio terá o desafio de assegurar que os dados primários de geolocalização coletados no campo reflitam, com exatidão, a realidade física das fazendas. O projeto que desenvolvemos foca na identificação individual de bovinos criados em pastagens, permitindo o acompanhamento de cada animal ao longo de sua vida. Ao associar a trajetória física completa a um código individualizado, a tecnologia provê a origem auditável exigida para acesso ao mercado europeu, respondendo a perguntas que o controle por lote não consegue sanar”, finaliza.
Fonte: Portal CANAL PECUARISTA